terça-feira, 14 de outubro de 2008

9. Os longos dias de York


Cedo no meu doutoramento, o que precisava de fazer era muito simples de dizer e mais difícil de fazer. Trabalho com proteínas, mas a história das proteínas começa no ADN. O ADN são os planos para construir proteínas. Assim à bruta, é isto.

Um gene não é mais do que uma porção de ADN, com uma sequência específica de quatro bases (Adenina, Timina, Guanina e Citosina), que são como peças de lego. Há um sinal de começar o gene, que é uma sequência específica de três bases (ATG). Cada três bases seguintes significam um determinado aminoácido. Por exemplo, GGC é uma glicina, o aminoácido mais simples que existe. Uma proteína é constituída por uma série de aminoácidos ligados uns aos outros. A alanina, outro aminoácido, escreve-se no ADN como GCC.

Uma proteína tem um número variável de aminoácidos. As que eu estudo têm cerca de 300. Assim, no ADN estão codificadas em genes com cerca de 900 bases. No final, há um sinal para parar (TGA), como quem diz "o gene acaba aqui, não há mais aminoácidos para esta proteína".

Por exemplo, a sequência de ADN:

ATG- GGC- GCC- GGC - TGA

Traduz-se por:

Começar - glicina - alanina - glicina - terminar

Claro que isto seria uma proteína com três aminoácidos. O que não é propriamente uma proteína. Mas a ideia é esta. E na realidade o sinal de começar também corresponde a um aminoácido, que é uma metionina. É a esta correspondência entre trios de bases de ADN e aminoácidos que constituem proteínas que se chama código genético.

Era precisamente isto que me levava a York. Fazer corte e costura com ADN. Uma actividade a que as pessoas normalmente chamam biologia molecular ou (mais em desuso) engenharia genética.

Não fui sozinho para York, fui com uma colega portuguesa, e estávamos interessados em proteínas de duas bactérias patogénicas. Campylobacter jejuni (causa diarreias) e Klebsiella pneumoniae (infecções hospitalares). E estávamos interessados em muitas!

Uma pipeta multicanal. Serve para medir e dispensar oito pequenos volumes ao mesmo tempo, usando oito pontas descartáveis.

A ideia era "cortar" o ADN que codificava as proteínas que nos interessavam e inseri-lo noutra bactéria mais simpática para os cientistas, que se chama Escherichia coli (mas podem chamar-lhe E. coli). Na realidade não inserimos o ADN original, inserimos um cópia da parte que nos interessa. E depois fazemos com que o objectivo da vida dessas bactérias seja produzir uma proteína que não é delas.

E assim se passavam os dias em York. Entre pipetas multicanal, muitos tubinhos pequeninos, tantos que não nos podíamos dar ao luxo de os numerar e apenas os conseguíamos identificar pela posição no suporte, numa lógica batalha naval. Começavam cedo, com um pequeno almoço insano, um almoço frugal (em geral uma sandes de queijo com tomate), uma corrida para o jantar (a cantina fechava muito cedo) e terminava também cedo com uma pint num pub. Era tudo cedo!

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4 comentários:

picuinhas disse...

David,

Este e o teu post anterior sao simples, mas muito coloridos e podem muito bem ser o inicio de um texto mais desenvolvido para o grande publico sobre nao propriamente investigacao mas sobre a vida dos investigadores, para chamar a atencao que nao fazem coisas esotericas ou esquisitas. Talvez ja tenhas pensado nisso, mas fica anyway a sugestao.

Um abraco

blogger de bancada disse...

gosto sempre de ver as contribuições do picuinhas, preocupado em pôr os outros a escrever mais e melhor no seu tempo livre e pelo mesmo preço. Já agora, onde podemos ler as suas próprias ideias e sugestões desenvolvidas por si?

picuinhas disse...

Caro blogger de bancada,

Nao fique muito preocupado em saber que opinioes tem o "label" picuinhas. Labels nao sao muito importantes - os meus entao menos que muitos outros. Mas garanto-lhe que a probabilidade de ja ter lido algumas das opinioes impressas escritas pelas maos que digitam este comentario e bastante elevada. Claro que pode ter sido colocado com um label diferente.
Porque no final o que interessa e a opiniao e nao o label que ela tem. Ou a sua preocupacao e mais de catalogar? Se é fico contente de usar labels diferentes. A pretensão é mesmo evitar catálogos.



David,

A sugestão mantém-se. Faz dela o que quiseres. Eu farei o mesmo.

ATRego disse...

Olha, olha quem sao eles!! :) Boas recordacoes...
beijinhos David,
Ana