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sexta-feira, 5 de junho de 2009

António Câmara sobre bolseiros de investigação

António Câmara, CEO da Ydreams, fala sobre a importância dos bolseiros do Grupo de Análise de Sistemas Ambientais (GASA) da Universidade Nova de Lisboa como geradores do conhecimento que deram origem à Ydreams e a outras empresas.




quarta-feira, 27 de maio de 2009

Repto aos não-cientistas: Qual a vossa imagem da vida amorosa de um cientista?


Imagem do calendário erótico da Federación de Jovenes Investigadores / Precarios

Uma Cientista ao Palco lançou este repto aos seus amigos e familiares. Todas as respostas recebidas até agora. Anónimas, apenas com indicação de genéro. Deixe-nos também a sua, na caixa de comentários!

(Masculino ; Feminino)

1.
Assim sinceramente (e não pensando em nenhum cientista em especial, nem em ti) os cientistas não têm uma vida amorosa normal? Isto é dentro das anormalidades que o amor implica obviamente! ou seja, uma vez que um cientista é um ser humano normal, tal como qualquer outro, acho que tem uma vida amoraosa normal! Por isso priminha, fica descansada!!! És normal como os outros!! :) F

2.
Como as enzimas, uns "enzima" dos outros bem juntinhos, como cadeias de DNA e barulhentos como electroes: Planck planck planck! F

3.
Acho que é cheia de experiencias M

4.
Eu acho que tu namoras com uma amiba M

5.
A vida amorosa de um cientistas deve envolver muita química... F

6.
Acho que dedicam demasiado tempo ao trabalho passando a vida amorosa para segundo plano. Depois como não sabem lidar com a vida amorosa, afastam-se das pessoas. M

7.
Pelo que conheço dos cientista de hoje em dia são em geral pessoas com a mentalidade aberta e pouco agarrados a tradições como o casamento. Geralmente vivem maritalmente ou sós. Como cientistas viajam bastante e por vezes por periodos alargados, como um ano ou mais.Muitos cientistas que conheço conseguem manter uma relação apesar de estarem muito tempo à distancia. M

8.
Eu acho que o Einstein era menino para se “esquecer” da função física se uma função diferencial lhe acometesse a mente.

Acho que o Darwin deveria supre activo para melhorar a evolução. Talvez tentasse variadíssimas posições e situações para estimular a variedade.

O Custeau fá-lo-ia, garantidamente no mar.


O Pasteur, só depois de devidamente limpo e esterilizado. Ele a companheira, a cama, o quarto e, provavelmente, em ambiente de subpressão com entrada Eppa.


O John Watson, em espiral. E sempre, duplamente.


O Descartes pararia para pensar, cogitar. O Damásio nem pensaria.


Platão fá-lo-ia atrás de um lençol iluminado - para projectar as sombras.


Arquimedes numa banheira. 


Maxwel em saca rolhas

Pierre Curie... por rádio (hoje, talvez internet)


Mas o mais explosivo, sexualmente seria, sem dúvida, o Nobel! Verdadeira dinamite.
 M

9.
“Para mim a vida amorosa de um cientista deve ser muito metódica :D Tudo com procedimentos bem definidos, rotinas escalpelizadas, e tudo com muita sustentação teórica :) 

Bem, acho que se for um cientista NO EXAGERO DA PALAVRA (Aquele que é tipo cientista-
maluco) a sua vida amorosa deverá ser uma vida em que devido ao seu horário de trabalho não rígido, deverá ter alguns problemas no que diz respeito à busca do seu grande amor e mesmona sustentação familiar de um relacionamento presente. Isto pq o seu horário muitas vezes o condiciona a ele e faz com que ele se interesse e se entusiasme por vezes demais no seu trabalho e menos um pouco na sua família. Um cientista é tão metódico e tão com os procedimentos bem definidos que via tudo o que tivesse a ver com a mulher relacionado com a ciência, ou seja, instigar-se sempre com o “porque”, (pq é k a mulher é assim? Pq é k a mulher tem tt necessidade de falar? Pk é k a mulher tem tanta necessidade de se vestir bem e de ser vaidosa? Pk é k a mulher tem necessidade de dizer mal das outras)…. E também com o “Como” (como é k a conquistarei? Como é k a mulher terá mais prazer? Como é k a posso levar a jantar?) e o “o que é? (O que é k a faz gostar mais de mim? O que é o prazer? O que é o amor? O que é o carinho”) M

10.
Bom, em primeiro há que salientar a qualidade da língua de um cientista. É impressionante oinglês técnico que dominam e mais impressionante ainda é que o utilizam (tb para mostraremque o possuem) durante todo o tempo da “vida amorosa”, falam em estrangeiro que só elesdevem perceber. Um cientista em que país for é sempre um estrangeiro.

O segundo ponto é ainda mais estranho, nos finais dos actos amorosos da “vida amorosa” é
normal que aconteçam coisas, hummmm…, “diferentes”, que nos os leigos (não cientistas)achamos normais e deixamo-nos estar todos contentes sentados no sofá. Agora não é normal no fim ir a correr para o Google para se tentar provar o quer que tenha acontecido, é pá, quebra a parte amorosa. Tirando isso acho normal. M

11.
Conseguem manter as ditas relações, mesmo com grandes períodos de ausência, uma vez que SE ESQUECEM que têm essas relações! (a ideia do cientista alienado do mundo). se vivem sós é porque não encontraram ninguém que aturasse as quebras para idas ao google! F

12.
Bastante farta e experimental. Nao sera por acaso que os tipos invetaram o Viagra uma das maravilhas do seculo, dizem! Qual tensao arterial alta ou colesterol... Viagra obedeça a prescrição e deixem-se de intelectualidades! Imaginem depois de tanta proveta e artefactos em forma de dildo!!! M

13.
Acho q pode ser menos vivida do ponto de vista sentimental pq é mais analisada do ponto de vista do processo em si e das reacções em causa. Ou seja, por exemplo um ginecologista! Eu acho sempre q eles a fazerem sexo estão sempre a pensar "ah, agr se puser o dedo ali no lijfoifhwfqlkfjlqk da minha companheira aquilo tem lá muitos circuitos nervosos e ela vai gostar" em vez de "go with the flow", o que deve ser um bocado chato, coitados...

Enquanto q aqueles q não são cientistas abstraem-se mais de tudo enqt estão a fazer o amor. É
 mais naquela de "ok, trabalho àparte, agora é para pinocar!" Só. E chega! Resumindo: um cientista, se não se puser a pau, pode ser muito chatinho na sua vida amorosa! F

14.
eu diria que o einstein se aproveitou melhor da teoria da relatividadade na sua vida amorosa...és feio, isso é relativo, és mau na cama, isso é relativo, querido, entao e eu, isso é relativo e.... e tb imagino um cientista a fazer um protocolo antes e um mapa de resultados depois e a entregar um esquemazinho...e a dizer “mas por favor diz-me se errares” F

domingo, 10 de maio de 2009

Cientistas ao Palco no Mundo das Mulheres



A 15 de Abril, na Sic Mulher, com a Luísa Mota (presidente da ABIC) e Adelaide Sousa. Tema do programa: "Quero ser cientista". Excerto sobre o projecto Cientistas ao Palco.

sexta-feira, 6 de março de 2009

catedrático que plagia los textos y que acosa sexualmente a profesoras.

Tomei conhecimento de um site sobre corrupção universitária em Espanha. Nós cá não temos nada disso, pelo menos não temos site!

http://www.corruptio.com/


Imagem com o título "La arrogancia de la corrupción" daqui. (As melhores legendas em espanhol sempre na Holla! e no seu blog favorito).

Ainda não analisei com detalhe, mas há temas relacionados com irregularidades em concursos para lugares de docência, abusos de poder, endogamia, plágios e até mesmo um caso inacreditável que passo a transcrever:

Universidad de Murcia: La Plataforma ha aclarado lo sucedido en Murcia con un catedrático que plagia los textos de otros y que, además, supuestamente acosa sexualmente a profesoras.

Não faço ideia se é verdade, mas não é bonito. E claro que esta abordagem voyarista de alegada corrupção não será necessariamente meritória. Mas creio que as questões da transparência dos concursos (uma recomendação da Carta Europeia do Investigador), da endogmia (demonstrado que afecta negativamente a produtividade científica) e do plágio (tabu?) não devem ser metidas para debaixo do tapete.

O problema de fundo creio que é a responsabilização. Nem me choca que um líder de grupo possa escolher livremente as pessoas com quem trabalha, sem necessitar de concursos-fantochada. Desde que seja responsabilizado pelos resultados, recompensado ou castigado. Se as universidades dependerem mais da qualidade da investigação para se financiarem (da capacidade dos seus investigadores para ganharem financiamento) talvez prefiram trabalhar com os melhores, mesmo que estes não sejam os amigos.

E talvez não devessem existir tantas posições permanentes. Como é possível responsabilizar alguém que nunca vai perder o emprego? Defendo posições temporárias nas universidades e institutos, e que ao fim de 3 a 10 anos as pessoas voltem ao mercado e as universidades tenham a oportunidade de se renovar. Naturalmente com mecanismos de protecção social adequados, para que esta mobilidade ocorra de modo sustentado e sem situações dramáticas.

Nesse aspecto vão sem dúvida na boa direcção as posições dos Laboratórios Associados e Ciencias 07/08. Vão? Pergunto, foram oportunidades ganhas ou perdidas? As instituições aproveitaram para contratar pessoas pela sua qualidade e mérito? Os concursos foram justos? Não sei. Mas acho que deveria ser avaliado.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Expulsão de cérebros

Citação de João Sentieiro, Presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia: "os bolseiros tem de se mentalizar que têm de ir lá para fora e isso não é mau para o País". Clique para ampliar a imagem.

Decorre amanhã, dia 3 de Março, uma Conferência Parlamentar sobre Ciência, promovida pela Comissão Parlamentar de Educação e Ciência, presidida pelo deputado António José Seguro, na qual infelizmente não poderei participar por motivos de força previamente agendados. Passo a enumerar os painéis e respectivos participantes (entre os quais o supracitado):
Painel 1: A Ciência em Portugal: realidade e perspectivas
João Sentieiro (Presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia), Lino Fernandes (Presidente da Agência de Inovação) e Ana Noronha (Directora Executiva do Ciência Viva).

Painel 2: A Ciência em Portugal: da produção à divulgação
Luís Portela (Presidente da BIAL), António Coutinho (Director do Instituto Gulbenkian de Ciência) e Vasco Trigo (Jornalista da RTP/Programa 2010)

Painel 3: A Ciência em Portugal: a rede pública de unidades de investigação
Alexandre Quintanilha (Secretário do Conselho dos Laboratórios Associados), Jorge Braga de Macedo (Presidente do Instituto de Investigação Científica Tropical/Universidade Nova de Lisboa) e Armando Cerezo Granadeiro Vicente (Director do Laboratório Militar de Produtos Químicos e Farmacêuticos)

Painel 4: A Ciência em Portugal: a dimensão internacional
Luís Magalhães (Presidente do Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia), Pedro Russo (Responsável da UNESCO pelo Ano Internacional da Astronomia) e Ricardo Serrão Santos (Director do Departamento de Oceanografia e Pescas da Univ. dos Açores)
O debate sobre as questões de ciência é importante e a percepção pública e política da importância da ciência também. Mas sendo o debate na Assembleia da República tenho pena que estejam fora da agenda temas que deveriam ser discutidos, votados e alterados pelos deputados, nomeadamente as condições com que muito investigadores se deparam em Portugal.

Mais conversa menos conversa, os cientistas continuam em saldos. Há investigadores que continuam a ganhar 745 euros, os montantes das bolsas não são actualizados desde 2002 (perda de 18% do poder de compra) e não têm direito ao regime geral de Segurança Social (aquele que os outros não querem).

Claro que isto não é bonito.

É interessante que o jovem investigador brilhante cujo braço peludo aparece na fotografia em cima seguiu o conselho do cartaz que segura. Quando acabou o doutoramento mentalizou-se que tinha que ir lá para fora, onde lhe foram oferecidas condições impensáveis em Portugal. Por muito bons que sejam o clima e a gastronomia, após meses sem bolsa (porque também não há subsidio de desemprego) achou que estava na altura de pagar o buraco no cartão de crédito.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Melhor bêbado conhecido que alcoólico anónimo


A endogamia nas universidades é definida como a existência de uma rede social que, independentemente do mérito dos candidatos, sistematicamente atribui posições aos amigos e conhecidos. Arcadi Navarro em 2001 fez um grande estrondo quando publicou na Nature um artigo em que colocava em números o fenómeno da contratação de docentes universitários com base em critérios de proximidade social em vez de mérito científico.

O critério usado por Navarro foi muito simples: comparou a morada do primeiro artigo publicado pelos docentes universitários com morada actual. No caso espanhol, em 95% dos casos era a mesma. Dito de outro modo, apenas 5% das vagas das faculdades são atribuídas a candidatos que vinham de fora. Nos Estados Unidos a situação é exactamente inversa, o número de candidatos externos a obter lugares nas faculdades é de 93%. No Reino Unido 83% e em França 50 %.

A endogamia tem um efeito claramente negativo na produtividade científica, segundo números da base de dados de publicações ISI Web of Knowledge, compilados por Arcadi Navarro. No Reino Unido, um país em que apenas dois em cada 10 elementos da faculdade são recrutados internamente, foram em 2005 produzidos 1463 artigos científicos por milhão de habitantes. E cada um deles, foi citado noutros artigos em média mais de três vezes, o que é uma medida da sua importância. No caso espanhol, em que 19 em cada 20 professores universitários são recrutados dentro da instituição, foram publicados 834 artigos por milhão de habitantes, citados 2,2 vezes cada. Portugal produziu 608 artigos por milhão de habitantes em 2005, citados em média menos de duas vezes.

Fonte: Observatório Nacional da Ciência e Ensino Superior
"Os Estados-Membros devem envidar esforços para tomar, sempre que necessário, as medidas cruciais para garantir que as entidades empregadoras ou financiadoras dos investigadores melhorem os métodos de recrutamento e os sistemas de avaliação/aferição profissional, a fim de criar um sistema mais transparente, aberto, equitativo e internacionalmente aceite de recrutamento e de progressão na carreira, como um requisito prévio para a criação de um verdadeiro mercado europeu de trabalho para os investigadores."

da Carta Europeia do Investigador
(Infografias do Público de 30 de Dezembro de 2006)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Cientistas continuam em saldos

Na sequência do post anterior (a propósito da importância dos bolseiros na formação de uma das mais importantes empresas de base tecnológica em Portugal, a Ydreams) reproduzo aqui um texto de opinião que publiquei no Público há uns meses:
Sabia que há cientistas que ganham 745 euros? Que não têm direito a subsídio de desemprego, férias, Natal ou alimentação? Que não são aumentados há seis anos? Está naturalmente curioso de saber em que país, mas estou certo de que já adivinhou.

São os bolseiros de investigação científica! Uma designação infeliz para os jovens (e menos jovens) investigadores, pois classifica-os pelo tipo de regime contratual com que exercem funções, secundarizando a natureza da actividade (investigação). Faz tanto sentido como descrever um juiz como um "assalariado da justiça".

Os bolseiros podem-se distinguir segundo o tipo de bolsa que têm. Os BIC (bolsa de investigação científica) são licenciados e, independentemente da sua experiência ou competências, ganham 745 euros. Os BD (bolsa de doutoramento) têm em geral um excelente percurso académico e científico (não é fácil ganhar a bolsa!), são investigadores experientes e motivados, ganham 980 euros. O mesmo valor desde 2002, o que representa face à inflação acumulada uma perda de 18 por cento do poder de compra.

Pode-se argumentar que os bolseiros "estão em formação" e que "já é uma sorte estarem a ser pagos". Mas trata-se de adultos (uma licenciatura não se acaba antes dos 22-23 anos) com contas para pagar e legítimo direito à emancipação (ou um cientista tem que viver em casa dos pais?). E quanto à formação, creio que qualquer bom profissional está sempre em formação. Todas as carreiras têm fases e o doutoramento é apenas uma fase da carreira de um cientista.

Os bolseiros têm direito ao chamado "seguro social voluntário" - que é uma espécie de não sei o quê. Basicamente, a entidade que concede a bolsa paga contribuições para a Segurança Social, equivalentes ao salário mínimo. Este é o regime pelo qual estão abrangidas as pessoas que não têm rendimentos. Por que raio enfiaram os jovens investigadores aqui? Fazendo o Governo gala de integrar todas as classes profissionais no regime geral de Segurança Social, que coerência tem não incluir os bolseiros? Esta reivindicação tem sido sucessivamente negada pela tutela. Para que não haja dúvidas: os jovens investigadores querem ser integrados num regime de Segurança Social que outros grupos profissionais não querem porque acham que é mau!

Penso que é necessário criar a percepção social deste problema e da necessidade de evolução, começando pelos próprios investigadores e professores do quadro que trabalham com bolseiros e que beneficiam do seu trabalho, com quem publicam artigos e escrevem patentes. Creio que seria de todo justo e adequado que os cientistas e investigadores estabelecidos tomassem pública e politicamente o partido dos jovens investigadores. A alternativa é continuar o choradinho da fuga de cérebros. Não há fuga de cérebros. Há expulsão de cérebros. Se não fazem falta, isso é outra história. Mas sendo assim, digam.
Na altura decorria um processo de negociação com a tutela para a revisão do Estatuto do Bolseiro de Investigação Científica, que define as condições em que os bolseiros exercem a sua actividade. Depois de avanços a passo de caracol e recuos a galope, o Ministério da Ciência e Tecnologia mostrou-se finalmente interessado em falar com a associação que representa os bolseiros (ABIC) sobre a revisão do tal estatuto.

Já passaram quase quatro meses e nada mudou. Os cientistas continuam em saldos. Se calhar só depois do mundial de 2018?

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

0. A paragem sem assento

Na semana seguinte à defesa da tese voltei ao acelerador de partículas de Grenoble para recolher dados, uma espécie de digressão de despedida ou viagem de finalistas (mas ocorreu-me que para uma viagem de finalistas do doutoramento, uma vez que não tive propriamente uma turma, deveria ter ido sozinho). Ao longo do próximo ano ainda hei-de escrever artigos sobre o trabalho em que andei envolvido e fechar alguns ciclos. Duas semanas depois já tinha agendadas reuniões por causa dos meus próximos projectos, mais ligados à comunicação de ciência. No fim de contas, o doutoramento foi só uma paragem e mal tive tempo de dizer cheguei antes de me por de novo a andar.

As contagens decrescentes sucedem-se umas às outras. Decidi terminar esta com a primeira frase da minha tese. Foi realmente a primeira frase que escrevi e tive especial cuidado, pois imaginei que fosse a frase mais lida de toda a tese.

"Proteins are polypeptide chains built from a repertoire of 20 aminoacids, but many also require tightly bound specific prosthetic groups or cofactors in the form of small molecules or metals for their biological activities."

10. Riscos e petiscos
9. Os longos dias de York
8. As bactérias que trabalham para nós
7. Os electrões às voltas na rotunda com as luzes acesas
6. Cristais e outros que tais
5. O mundo a 173 negativos
4. Viagens na minha tese
3. A luta continuada
2. Desporto e cerveja
1. Os companheiros de viagem

1. Os companheiros de viagem

Foi uma boa viagem, em parte pela companhia. Transcrevo por isso os agradecimentos da minha tese, que está escrita em inglês.

I would like to thank my two supervisors. Professor Maria Arménia Carrondo for creating the conditions that allowed me to perform this work, for being there in decisive moments and supporting me in critical occasions. Dr. Francisco Enguita for all the teaching, motivation, energy, decisive contributions and friendship. It was really a privilege to have worked so closely and learn with him.

The PhD is a journey and we travel alongside travel mates. Sometimes we are lucky and the journey is more pleasant. I think I was very fortuned. Ana Toste Rego was one of the first travel mates. We shared long days at the York Structural Biology Laboratory, performing delicate molecular biology work, sometimes really working “four hands”.

David Aragão’s friendship and sense of humour gave me great confidence. His help was very valuable in many occasions; he was an excellent and patient guide to the Linux and non-trivial crystallography software world.

Daniele de Sanctis, a very good ally and friend that shared his experience and knowledge with me, countless times. Not only within the crystallography scope, but also in the Italian cooking field!

Mário Correia was a reliable lab partner and good friend. Always available to help, make suggestions and troubleshoot discussions.


I thank Colin McVey for helpful brainstorms and suggestions, and to help troubleshoot software setup issues.


Also, Pedro Matias for sharing his expertise and experience with me. He gave me valuable insights and suggestions and was a great help with data collection, numerous times.


Ricardo Coelho was my good and friendly desk neighbour for all this years. He was always available to reliably perform very delicate crystal manipulation operations and to give good suggestions for crystal optimization.


Diana Plácido and Tânia Oliveira for their friendship and confidence, for listening to me and for good advice.


For the final parts of my travel, I have to specially thank Ana Teresa Gonçalves for her inspiring motivation and genuine friendship.


I cannot forget Catarina Silva, a great friend and a precious ally. Always keen to help and to undertake constructive actions.


I'd also like to thank all that received me at the York Structural Biology Laboratory, specially Dr. Mark Fogg and Dr. Keith Wilson.


For financial support I thank Fundação para a Ciência e Tecnologia (PhD grant SFRH/BD/13738/2003). The research also received funding by the European Commission under the SPINE project, contract-no. QLG2-CT-2002-00988 under the RTD programme "Quality of Life and Management of Living Resources".


Above all I would like to thank my family. For always believing and supporting me when needed, for creating the conditions and the environment that allowed me to pursue my education even when that wasn’t so easy. My grandmother was born in 1909, in a small village in Portugal. Although she had a prodigious memory, she never had the opportunity to learn how to read. My grandmother past away in the second year of my PhD, during a short three weeks stay at the York Structural Biology Laboratory. I don’t think she missed not being here to see me defend my thesis; I’m sure she would had rather be at my hypothetical wedding or hold a grand-grandson. My grandfather had a four-year formal education, in the time Portugal was still a kingdom. He embraced quite an adventure when decided to move to the agitated Lisbon of the First Republic. He came with nothing and worked hard to offer his two daughters the best education he could. He had a struggling and long life, and eventually died when I was in the second year of university. Thanks to the efforts of my grandparents, my mother and my aunt where able to study more than anyone in the family before. I can't forget my uncle, who was also an important element in my path. I would like to thank them all, for making the hardest parts of the way that leads me here.

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terça-feira, 16 de dezembro de 2008

2. Desporto e cerveja

Na véspera decidi que não iria fazer nada de especial. Afinal, o que faltaria que não tivesse sido feito ao fim de mais de quatro anos e que ainda conseguisse fazer no dia que faltava? Pelo menos uma coisa: o teste de som e vídeo. Pouco depois do almoço fui ao ITQB e experimentei a minha apresentação no projector do auditório. Descobri que iria usar um headset, semelhante aos que usam os bailarinos da Madonna, como microfone. Gostei!

Ao fim da tarde fui escalar para uma parede artificial, no Complexo Desportivo do Jamor, que não por acaso fica ao pé da minha casa. Combinei com os meus grandes amigos Tiago e Mário, companheiros de outras aventuras menos caseiras, nomeadamente pelas encostas do Monte Branco acima e abaixo. Primeira surpresa, os projectores que iluminam a parede estavam apagados. Tudo bem, escalamos com a luz dos frontais, pequenas lanternas que se prendem à cabeça, ao estilo mineiro.

Jantar frango assado take-away, cervejas e muitas momentos revividos com gargalhadas e brindes. É neste momento que desligo o telemóvel para só voltar a ligar depois da defesa da tese.

Durmo bem e no dia seguinte levanto-me para ir buscar a minha camisa ao sinc-à-sec. É a única peça de roupa mais formal, já que defendi a tese de calças de ganga. Afinal não é nenhum casamento e se fosse eu provavelmente não ia. Prefiro estar vestido de um modo que me sinta confortável do que mascarado. O melhor compromisso que arranjei foram as calças de ganga e a camisa direitinha.

Camisa em casa, pego na raquete e vou para a parede bate-bolas. Fico a bater bolas contra a parede durante mais de uma hora, olhando para o relógio de vez em quando. Almoço na esplanada junto ao campo central do Estádio Nacional, ainda em calções e com a raquete na cadeira do lado. Quem me viu não imaginou que iria defender a minha tese de doutoramento em bioquímica estrutural dentro de menos de duas horas.

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quarta-feira, 19 de novembro de 2008

3. A luta continuada

Camping frente à AR, Outubro de 2006.

É uma luta continuada, a dos bolseiros de investigação científica. Se no 4 falei do privilégio de viajar, nem tudo são rosas. Nem um privilégio necessário compensa a falta de direitos básicos de um grupo de cidadãos que trabalha para o bem estar e desenvolvimento das sociedades em que está inserido.

Os jovens investigadores não têm, por exemplo, direito ao regime geral de segurança social, nem baixa por doença, subsidio de desemprego, etc. Mas não me vou aqui alongar sobre isso, escrevi um artigo de opinião recentemente no Público cerca deste assunto.

A ciência não interessa para nada. Até ao dia que uma eventual mutação num vírus da gripe ameaça a saúde pública. Ou uma linha de alta tensão. Ou as radiações dos telemóveis. Mas a importância da investigação, e consequentemente das condições dos recursos humanos que nela trabalham, não é percepcionada de um modo muito imediato pela sociedade. Por isso, a luta dos jovens investigadores não se faz de grandes saltos, como se os camionistas entrassem em greve. Faz-se degrau a degrau.

Eu acho que também faz parte, para quem faz um doutoramento com uma bolsa, ajudar a subir uns degraus desta escada.

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terça-feira, 18 de novembro de 2008

4. Viagens na minha tese

É de facto um privilégio os investigadores terem oportunidade de viajar para ir a conferências, encontros da rede de trabalho, etc. É justificado na medida em que faz sentido trocar experiências com pessoas que trabalham no mesma área que nós, especialmente quando esta vai sendo inventada todos os dias. Não fui a tantas conferências e encontros quanto poderia. Mas de quase todas trouxe qualquer coisa de interessante, que nalguns casos se passou a utilizar no laboratório em Oeiras.

Às vezes esta oportunidade e quase obrigação de viajar não parece tanto um privilégio. Por exemplo, fui umas cinco vezes a Hamburgo e posso dizer envergonhadamente que não conheço Hamburgo. Invariavelmente apanhei um táxi no aeroporto para o sincrotrão, para depois passar vários dias num túnel a fazer experiências com raio-X e cristais de proteínas a 173 graus negativos, dormindo e alimentando-me quando era mais conveniente para os cristais, para voltar a enfiar-me num táxi directo para o aeroporto. O mais que me aproximei de Hamburgo foram os arredores. Peguei numa bicicleta, mas não consegui chegar ao centro, tinha que voltar para os meus cristais, o recreio tinha acabado. Mas sei que Hamburgo tem uma zona portuária magnifica e uma rua só com prostitutas. Nunca vi nada disso, mas contaram-me! Um dia hei-de lá ir. Mas para a próxima, apanho o autocarro.

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sexta-feira, 7 de novembro de 2008

5. O mundo a 173 negativos

É um certo paradoxo, a razão pela qual nos damos ao trabalho de arrefecer cristais de proteína antes de os expor a um feixe de raio-X de alta intensidade.

Quanto mais intenso é o feixe de raio-X, mais detalhes conseguimos saber da estrutura da proteína que constitui o cristal. Mas o feixe de raio-X também vai destruindo o cristal. Para contornar este paradoxo, fazemos as experiências a 173 graus negativos. Porque a esta temperatura (obtida graças a uma corrente constante de ar seco, arrefecido com azoto líquido) tudo é mais lento. Nomeadamente os processos de danos por radiação.

"Carrossel" com 10 tubos contendo cristais de proteína mergulhado em azoto líquido.

Cada cristal é pescado da gota em que cresce, com um loop muito pequeno (semelhante a um laço à cowboy com alguma décimas de milímetro) e mergulhado em azoto líquido. Antes, como um cristal de proteína tem cerca de 50% de água, temos que a tirar lá de dentro. Senão acontece o mesmo que a uma garrafa de água cheia que se coloca no congelador: aumenta de volume e parte. Substituímos a água no cristal por outro líquido que não aumente de volume quando congela. Em geral, glicerol (tem de ser uma molécula pequena, para poder entrar nos canais de solvente do cristal).

Operações triviais à temperatura ambiente passam a requerer uma certa técnica e cuidado, para não descongelarmos o cristal e não nos queimarmos com o azoto líquido.

Pescamos o cristal, mergulhamos em azoto líquido, encaixamos a base do laço à cowboy num pequeno tubo de plástico e guardamos. A partir de aqui, tudo tem que ser feito num banho de azoto líquido. Encaixar e desencaixar a base magnética, colocar o tubinho num carrossel para poder ser medido, encaixá-lo numa peça de metal para ser transportado num termo em azoto líquido. Usam-se pinças e varinhas magnéticas para fazer estas operações. Porque não podemos simplesmente pegar na tampa do frasquinho e desenroscá-la com os dedos mergulhados em azoto líquido.

É o mundo a -173ºC

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terça-feira, 4 de novembro de 2008

6. Cristais e outros que tais

Não é fácil fazer cristais de proteína, porque as coisas têm tendência a existir de um modo desorganizado, e um cristal é uma forma da matéria em que as moléculas estão todas o orientadas da mesma maneira e distribuídas a distâncias regulares pelas três dimensões.

O principio é ter a proteína numa solução e ir lentamente retirando a água. A proteína está dissolvida porque há moléculas de água que estabilizam as suas cargas de superfície. Quando as moléculas de água disponíveis escasseiam, as proteínas juntam-se umas às outras e acabam por passar ao estado sólido na forma de agregados. Em condições especiais, juntam-se de um modo organizado e fazem uma rede, semelhante a um painel de azulejos em três dimensões. Isso é um cristal.

Cristais de proteína

Como não sabemos à partida em que condições isto acontece experimentamos muitas coisas. Diferentes aditivos que competem pelas moléculas de água, concentrações de proteína, etc. Tantas que até temos robôs para ajudar.

Estas experiências são feitas em pequenas gotas, que evaporam muito lentamente num ambiente fechado. O resultado mais comum não é um cristal, mas sim um precipitado amorfo, sem utilidade para caracterização por raio-X. Quando finalmente encontramos condições em que a proteína cristaliza é quase como descobrir a combinação de um cofre.

O robôt de cristalização

As gotas feitas pelo robot têm um volume de 300 nanolitro (um nanolitro é um milhão de vezes mais pequeno que um mililitro), por isso temos que procurar os cristais através de uma lupa que aumenta 200 vezes. Não é uma lupa à detective, tem um aspecto semelhante a um microscópio, com duas oculares. A diferença entre uma lupa e um microscópio é que a lupa só tem uma lente e o microscópio óptico tem duas. Como consequência numa lupa conseguem-se ver as coisas em três dimensões e num microscópio não, pois os planos ficam todos compactados. Mas um microscópio, multiplicando a capacidade de aumento de duas lentes, aumenta significativamente mais.

Lupas para observação de cristais do Laboratório de Cristalografia do ITQB

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terça-feira, 28 de outubro de 2008

7. Os electrões às voltas na rotunda com as luzes acesas

Fui pela primeira vez a Grenoble (França) em 1999, no âmbito do meu estágio de licenciatura, em cristalografia de raio-X de proteínas. Era um curso de uns três ou quatro dias sobre aplicações de feixes de raio-X produzidos num sincrotrão.

Um sincrotrão é um acelerador de partículas, um sítio onde (neste caso) os electrões andam a velocidades próximas da luz. Um electrão às voltas num acelerador de partículas é como um carro às voltas numa rotunda com os faróis acesos. Emite luz numa direcção tangencial à sua trajectória. No caso do carro às voltas na rotunda é luz visível, no do electrão raio-X.

O que me faz constantemente voltar a Grenoble é um sincrotrão, em que os electrões dão voltas de 600 metros e emitem raio-X a cada curva. O European Synchrotron Radiation Facility (ESRF).

Ao contrário de outros aceleradores de partículas, o ESRF não está enterrado e o túnel circular pode distinguir-se perfeitamente.

O que ponho à frente desse feixe de raio-X de alta intensidade são cristais de proteína. Um cristal é um sólido em que as moléculas estão todas orientadas da mesma maneira. Assim, quando a radiação incide no cristal todas as moléculas interagem com ela da mesma maneira. Se as moléculas estivessem cada uma virada para seu lado, a interacção de uma era anulada pela de outra, e no final não víamos nada. É o que acontece com um sólido amorfo.

Pormenor de uma cabine experimental (beamline) do ESRF. Quando o feixe de raio-X está "ligado" ninguém aqui pode estar. No entanto, entramos para introduzir as amostras e preparar a experiência.

Fazendo curta a história, pomos o cristal de proteína à frente do feixe de raio-X e parte da radiação é desviada em direcções muito definidas que são registadas num detector (semelhante a um CCD de uma máquina fotográfica digital). Na imagem obtida no detector aparecem uns pontinhos. Rodamos o cristal, incidimos mais raio-X e obtemos mais pontinhos. Por inacreditável que pareça, esses pontinhos têm informação sobre a estrutura (a forma em três dimensões) da proteína (a unidade que se repete no cristal).

Na sala de controlo, cheia de computadores e a salvo dos raios-X.

Mas em 1999 não estava muito para aí virado. Tinha decidido arranjar um emprego numa empresa quando acabasse o curso. Grenoble impressionou-me pelas montanhas, o próprio sincrotrão é imponente, mas lembro-me de ter pensado que provavelmente nunca mais lá voltaria. Por outras ocasiões pensei a mesma coisa.

Grenoble é o sítio onde estou sempre a voltar pela última vez.

10, 9, 8

terça-feira, 21 de outubro de 2008

8. As bactérias que trabalham para nós

O modo como fazemos as bactérias trabalhar para nós, ou seja produzir uma proteína que não é delas e não lhes serve para nada, mas que nos interessa, tem a sua inteligência e perversão.

A dada altura convencemo-las de que estão em perigo iminente e de que a única maneira de se salvarem é produzindo a proteína que nos interessa. O que elas fazem, se tudo correr bem. Depois, longe de se salvarem, o que acontece é que nós rebentamos com elas e tiramos a proteína lá de dentro. Felizmente ainda não há activistas dos direitos e bem estar das bactérias (e ainda bem, caso contrário deixaríamos de poder tomar antibióticos e regressaríamos ao inicio do século passado).

Regressado de York, foi à produção biotecnológica de proteínas que me dediquei no ITQB, em Oeiras. O que trouxe na bagagem foram essencialmente pequenos tubos, aparentemente vazios. Com o olho treinado, e sob luz directa, poderiam distinguir-se resíduos esbranquiçados no fundo de cada tubo, que na realidade continha ADN liofilizado (o branco não é do ADN, mas sim de proteínas associadas). Porções circulares de ADN, a que se chamam plasmídeos, cada um deles contendo um gene com a informação para construir uma proteína.

Inseridos os plasmídeos dentro das bactérias, e com a motivação adequada que já mencionei, elas estão dispostas a colaborar. Fazemos com que o objectivo da vida delas seja produzir a proteína que queremos. Este é o mesmo processo usado para produzir anticorpos (que também são proteínas) para fins terapêuticos. Uma actividade reconhecidamente meritória e perfeitamente enquadrada na sociedade. Que mais uma bactéria pode ambicionar?

10, 9

terça-feira, 14 de outubro de 2008

9. Os longos dias de York


Cedo no meu doutoramento, o que precisava de fazer era muito simples de dizer e mais difícil de fazer. Trabalho com proteínas, mas a história das proteínas começa no ADN. O ADN são os planos para construir proteínas. Assim à bruta, é isto.

Um gene não é mais do que uma porção de ADN, com uma sequência específica de quatro bases (Adenina, Timina, Guanina e Citosina), que são como peças de lego. Há um sinal de começar o gene, que é uma sequência específica de três bases (ATG). Cada três bases seguintes significam um determinado aminoácido. Por exemplo, GGC é uma glicina, o aminoácido mais simples que existe. Uma proteína é constituída por uma série de aminoácidos ligados uns aos outros. A alanina, outro aminoácido, escreve-se no ADN como GCC.

Uma proteína tem um número variável de aminoácidos. As que eu estudo têm cerca de 300. Assim, no ADN estão codificadas em genes com cerca de 900 bases. No final, há um sinal para parar (TGA), como quem diz "o gene acaba aqui, não há mais aminoácidos para esta proteína".

Por exemplo, a sequência de ADN:

ATG- GGC- GCC- GGC - TGA

Traduz-se por:

Começar - glicina - alanina - glicina - terminar

Claro que isto seria uma proteína com três aminoácidos. O que não é propriamente uma proteína. Mas a ideia é esta. E na realidade o sinal de começar também corresponde a um aminoácido, que é uma metionina. É a esta correspondência entre trios de bases de ADN e aminoácidos que constituem proteínas que se chama código genético.

Era precisamente isto que me levava a York. Fazer corte e costura com ADN. Uma actividade a que as pessoas normalmente chamam biologia molecular ou (mais em desuso) engenharia genética.

Não fui sozinho para York, fui com uma colega portuguesa, e estávamos interessados em proteínas de duas bactérias patogénicas. Campylobacter jejuni (causa diarreias) e Klebsiella pneumoniae (infecções hospitalares). E estávamos interessados em muitas!

Uma pipeta multicanal. Serve para medir e dispensar oito pequenos volumes ao mesmo tempo, usando oito pontas descartáveis.

A ideia era "cortar" o ADN que codificava as proteínas que nos interessavam e inseri-lo noutra bactéria mais simpática para os cientistas, que se chama Escherichia coli (mas podem chamar-lhe E. coli). Na realidade não inserimos o ADN original, inserimos um cópia da parte que nos interessa. E depois fazemos com que o objectivo da vida dessas bactérias seja produzir uma proteína que não é delas.

E assim se passavam os dias em York. Entre pipetas multicanal, muitos tubinhos pequeninos, tantos que não nos podíamos dar ao luxo de os numerar e apenas os conseguíamos identificar pela posição no suporte, numa lógica batalha naval. Começavam cedo, com um pequeno almoço insano, um almoço frugal (em geral uma sandes de queijo com tomate), uma corrida para o jantar (a cantina fechava muito cedo) e terminava também cedo com uma pint num pub. Era tudo cedo!

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segunda-feira, 13 de outubro de 2008

10. Riscos e petiscos

É uma longa contagem decrescente que se aproxima agora do lançamento.

Não sei exactamente quando começou, vou escolher começar a contar desde que me resolvi despedir da empresa farmacêutica onde trabalhava para fazer um doutoramento. Troquei o subsídio de Natal, de férias, o bónus anual, o contrato sem termo certo e a respeitabilidade social de ter um emprego pelo conceito bem mais difuso de "fazer investigação" e "ter uma bolsa".

Não era que não precisasse de ganhar dinheiro para pagar as minhas contas todos os meses. Mas como infelizmente não acredito na reencarnação tenho que tentar fazer as coisas que quero nesta vida.

Filosofias à parte, simplesmente decidi arriscar e encontrei-me no final de Julho de 2002 desempregado. E optimista. Tal como em muitas ocasiões na vida, e ainda com os bolsos cheios dos subsídios de Natal e de férias, não antecipei a verdadeira dimensão dos obstáculos que estavam à minha frente. E ainda bem. Considero que a capacidade de subestimar as dificuldades é uma qualidade que tenho.

Em Setembro estava de volta ao Instituto de Tecnologia Química e Biológica (ITQB), em Oeiras, onde três anos antes tinha feito o meu estágio de licenciatura, no grupo de Cristalografia de Raio-X de proteínas. A mudança foi agradável. Deixei a fábrica com as tubagens de solventes inflamáveis que me passavam por cima da cabeça para um laboratório com vista para as vinhas da Estação Agronómica Nacional, que produzem as uvas com que se faz o excelente vinho de Carcavelos.

Comecei por me integrar num projecto em curso, com uma bolsa de investigação científica. Com esse trabalho e o que tinha feito no estágio de licenciatura na mesma área, fiquei com dois artigos científicos publicados, o que permitiu reforçar o meu currículo e melhorar as possibilidades de ganhar uma bolsa de doutoramento. Mesmo assim não ganhei. O meu trabalho de investigação na industria, protegido pelo segredo industrial e que não dá origem a publicações, não foi valorizado. Foi um daqueles momentos em que parecia que a vida me queria castigar por ter arriscado. Mas afinal só me queria dar um aviso. Pedi recurso da decisão e três meses depois acabou por me ser concedida a bolsa.

E foi assim que começou.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

"Is that alcohol?"

Trinity College, Dublin mas não parece, o sol sente-se bem quando sai de trás da nuvem. Três estudantes, raparigas, sentam-se no relvado quase alinhadas com a placa que diz "Ná gabh ar na pairceanna imerartha, led thoil, Please keep of the playing fields". Não faz mal, há outras pessoas que o fazem, não tão perto da placa, é certo. Hora de almoço, que salta das malas em caixinhas transparentes de plástico com etiquetas. Não são malas escolares, são malas como as que as senhoras usam para levar ferros de engomar e tijolos. Salta também uma garrafa de champanhe e a rolha com o som característico. Não tinham decorrido nem 10 segundos do salto da rolha e aparece um polícia, desarmado. Levanto definitivamente os olhos do meu livro.

- Isso é álcool?

(Tão evidente quanto ele ser um polícia)

- Não é permitido beber no campus.

Fazem menção de voltar a colocar a rolha, mas deparam-se com as leis da física.

- Certifiquem-se de que essa rolha fica bem posta.

Após alguma hesitação uma delas, sorridente, pega na garrafa, levanta-se e deita-a no lixo. Apesar da placa "Keep of the playing fields", o polícia dá-se por satisfeito e vai-se. Elas terminam a refeição divertidas, com morangos, sem uma ponta detectável de indignação e sem ensaiarem o resgate da garrafa do caixote do lixo. Pergunto-me se isto acontecerá exactamente assim todos os dias ou só quando está bom tempo.

Tudo isto me leva a concluir que o Trinity College de Dublin não é um bom sítio para beber copos.