Muitas pessoas gostam de acreditar em ideias absurdas pseudocientíficas, que aparecem como uma espécie de "ciência à la carte, só para conhecedores" ou "ciência" de auto-ajuda.
Quem não tem preocupações sérias de rigor nem o seu trabalho escrutinado pelos pares pode simplesmente gritar "Bê!!!!". Acreditem em Bê e sejam felizes. Já várias pessoas que passaram a viver de acordo com Bê ficaram ricas. Bê garante sucesso com o sexo oposto, saúde e vitalidade. Não há condições de aplicação, não há restrições (a não ser comprar um livro, a entrada numa conferência ou num consultório). Assim de repente, e só por estar a escrever isto, confesso que Bê me parece uma coisa interessante.
Uma excelente TED talk do Michael Shermer, fundador da Skeptic magazine e Skeptics Society, sobre a razão pela qual as pessoas gostam de acreditar em coisas estranhas.
Crónica, no Expresso, de um amigo jornalista, que trabalha numa daqueles jornais satíricos, e que quer fazer um brilharete com a reportagem-balanço da Terra engolida por um buraco negro. A propósito da banha da cobra quântica tão na moda.
Um jornalista a falar do pseudo-jornalismo sobre pseudo-ciência:
(...)
Na peça aparece uma moça ligada por uns fios aos tornozelos e uma banda na cabeça a um computador aparentemente banal. O engenheiro José Joaquim Lupi, o nosso compatriota no Brasil, revela candidamente o que faz a Terapia Quântica. "Vai buscar matrizes de base energéticas de tudo o que existe, de elementos físicos, mentais energéticos, emocionais e assim podemos testar uma coisa que está na ponta de tudo o que é medicina e que é a reactividade electrofisiológica do corpo humano, e depois com um programa de Inteligência Artificial dos mais sofisticados do mundo conseguimos reequilibrar virtualmente todo o sistema energético." Só nesta frase eu leio o suficiente para juntar um Nobel à beatificação.
A Física Quântica é uma coisa genuinamente fantástica a que ninguém que tome minimamente contacto consegue ficar indiferente. E absolutamente em ruptura com os paradigmas do senso comum e aquilo que é a nossa percepção da realidade macroscópica. O teletransporte, ao nível atómico, não é ficção. É hoje realidade. Mas, há por aí muito charlatão que se tenta validar com o "selo quântico". Como ninguém sabe muito bem o que é, pode-se dizer tudo o que se quiser. Mas nem tudo o que luz é quântico!
Na viragem do século XIX nascia a física quântica, trazida por Einstein e Planck, com a hipótese arrojada e fora de senso comum de que a luz existe em quantidades bem definidas. Mais de um século decorrido, a física quântica está na moda e mesmo James Bond já se rendeu às maravilhas do marketing quântico. Uma recente reportagem televisiva começava com a seguinte afirmação: "tem aumentado o número de portugueses que recorrem à física quântica para melhorarem o bem-estar e a saúde". E prosseguia:
"Um analisador scanner e dois eléctrodos fazem o varrimento eléctrico intersticial. O nome é complicado, mas só graças a este sistema se pode fazer uma análise pormenorizada ao organismo. A medição é feita em apenas três minutos." (...) Um pequeno desequilíbrio pode evoluir para um grave problema de saúde como um tumor, a diabetes ou uma esclerose. Somos o que comemos e é partindo dessa premissa que quando falham os nutrientes o organismo perde a capacidade de reagir. (...) A física quântica aplicada à saúde é cada vez mais uma realidade em Portugal. Sinal dos tempos de uma sociedade cada vez mais stressante, mas também de uma nova forma de procurar o bem-estar do organismo."
É difícil encontrar algo que não seja um disparate. E nada disto tem a ver com física quântica. A física quântica tem a ver com níveis de energia dos electrões no átomo, incerteza na posição e velocidade de uma partícula, como de algum modo as partículas também se comportam como ondas. A alimentação tem a ver com a física quântica na medida em que os alimentos são feitos de átomos com electrões que se distribuem por vários níveis de energia. Ou que a origem da energia dos açúcares produzidos pelas plantas é um fotão que excita um electrão num átomo de magnésio de uma molécula de clorofila. Mas isto é tão útil em termos de nutrição como dizer que a física quântica se aplica à construção de barragens.
Um exemplo interessante é o dos transístores. Os transístores, cujo funcionamento é explicado pela física quântica, estão espalhados por todo o género de geringonças, inclusive nas máquinas de lavar. Faria algum sentido dizer que cada vez mais portugueses recorrem à física quântica para lavar melhor a roupa? Algo anedótico, na medida em que os portugueses na realidade o que usam para lavar a roupa é água e detergente.
A ideia da física quântica como uma coisa fixe para vender a banha da cobra não foi descoberta por estas reportagem (aliás secundada por outras).
Por exemplo, o popular documentário new age "What the bleep do we know" defende que a consciência influência a matéria. Um monge benze as moléculas de água e a rede semi-cristalina passa de desarrumada e feia para linda e arrumadinha. Isto, por causa da física quântica, claro. O documentário também defende que a meditação em massa pode reduzir as taxas de criminalidade violenta. Se for verdade, isto provavelmente significa que os criminosos eram as mesmas pessoas que estão agora a meditar.
A cultura científica não é hoje um dado adquirido. Por um lado a ciência é desvalorizada quando não interessa (aquecimento global, criacionismo), por outro a sua credibilidade é usurpada como arma de arremesso para vender curas e mezinhas que de científico não têm nada.
Investigador em bioquímica. Jornalista de ciência no Público por um curto período. Autor de conteúdos científicos para crianças. Criativo do Inimigo Público.