Não há nenhum português entre os seis novos astronautas escolhidos pela ESA entre 8413 candidatos. Mas Portugal está preparado para escolher um astronauta. Se a ESA tivesse uma fase de selecção nacional em que cada país escolhesse um astronauta, os finalistas portugueses seriam Dias Loureiros e Pina Moura, nomeados por uma comissão. PSD e PS alternariam na escolha do astronauta para cada recrutamento da ESA. Se PS e PSD não se entendessem, um astronauta proposto pelo BE poderia ter um bom resultado na primeira fase de selecção.
Quem pensa que deveria tripular a primeira missão portuguesa ao espaço?
Crónica, no Expresso, de um amigo jornalista, que trabalha numa daqueles jornais satíricos, e que quer fazer um brilharete com a reportagem-balanço da Terra engolida por um buraco negro. A propósito da banha da cobra quântica tão na moda.
Um jornalista a falar do pseudo-jornalismo sobre pseudo-ciência:
(...)
Na peça aparece uma moça ligada por uns fios aos tornozelos e uma banda na cabeça a um computador aparentemente banal. O engenheiro José Joaquim Lupi, o nosso compatriota no Brasil, revela candidamente o que faz a Terapia Quântica. "Vai buscar matrizes de base energéticas de tudo o que existe, de elementos físicos, mentais energéticos, emocionais e assim podemos testar uma coisa que está na ponta de tudo o que é medicina e que é a reactividade electrofisiológica do corpo humano, e depois com um programa de Inteligência Artificial dos mais sofisticados do mundo conseguimos reequilibrar virtualmente todo o sistema energético." Só nesta frase eu leio o suficiente para juntar um Nobel à beatificação.
A Física Quântica é uma coisa genuinamente fantástica a que ninguém que tome minimamente contacto consegue ficar indiferente. E absolutamente em ruptura com os paradigmas do senso comum e aquilo que é a nossa percepção da realidade macroscópica. O teletransporte, ao nível atómico, não é ficção. É hoje realidade. Mas, há por aí muito charlatão que se tenta validar com o "selo quântico". Como ninguém sabe muito bem o que é, pode-se dizer tudo o que se quiser. Mas nem tudo o que luz é quântico!
Na viragem do século XIX nascia a física quântica, trazida por Einstein e Planck, com a hipótese arrojada e fora de senso comum de que a luz existe em quantidades bem definidas. Mais de um século decorrido, a física quântica está na moda e mesmo James Bond já se rendeu às maravilhas do marketing quântico. Uma recente reportagem televisiva começava com a seguinte afirmação: "tem aumentado o número de portugueses que recorrem à física quântica para melhorarem o bem-estar e a saúde". E prosseguia:
"Um analisador scanner e dois eléctrodos fazem o varrimento eléctrico intersticial. O nome é complicado, mas só graças a este sistema se pode fazer uma análise pormenorizada ao organismo. A medição é feita em apenas três minutos." (...) Um pequeno desequilíbrio pode evoluir para um grave problema de saúde como um tumor, a diabetes ou uma esclerose. Somos o que comemos e é partindo dessa premissa que quando falham os nutrientes o organismo perde a capacidade de reagir. (...) A física quântica aplicada à saúde é cada vez mais uma realidade em Portugal. Sinal dos tempos de uma sociedade cada vez mais stressante, mas também de uma nova forma de procurar o bem-estar do organismo."
É difícil encontrar algo que não seja um disparate. E nada disto tem a ver com física quântica. A física quântica tem a ver com níveis de energia dos electrões no átomo, incerteza na posição e velocidade de uma partícula, como de algum modo as partículas também se comportam como ondas. A alimentação tem a ver com a física quântica na medida em que os alimentos são feitos de átomos com electrões que se distribuem por vários níveis de energia. Ou que a origem da energia dos açúcares produzidos pelas plantas é um fotão que excita um electrão num átomo de magnésio de uma molécula de clorofila. Mas isto é tão útil em termos de nutrição como dizer que a física quântica se aplica à construção de barragens.
Um exemplo interessante é o dos transístores. Os transístores, cujo funcionamento é explicado pela física quântica, estão espalhados por todo o género de geringonças, inclusive nas máquinas de lavar. Faria algum sentido dizer que cada vez mais portugueses recorrem à física quântica para lavar melhor a roupa? Algo anedótico, na medida em que os portugueses na realidade o que usam para lavar a roupa é água e detergente.
A ideia da física quântica como uma coisa fixe para vender a banha da cobra não foi descoberta por estas reportagem (aliás secundada por outras).
Por exemplo, o popular documentário new age "What the bleep do we know" defende que a consciência influência a matéria. Um monge benze as moléculas de água e a rede semi-cristalina passa de desarrumada e feia para linda e arrumadinha. Isto, por causa da física quântica, claro. O documentário também defende que a meditação em massa pode reduzir as taxas de criminalidade violenta. Se for verdade, isto provavelmente significa que os criminosos eram as mesmas pessoas que estão agora a meditar.
A cultura científica não é hoje um dado adquirido. Por um lado a ciência é desvalorizada quando não interessa (aquecimento global, criacionismo), por outro a sua credibilidade é usurpada como arma de arremesso para vender curas e mezinhas que de científico não têm nada.
Doutoramentos na hora têm só capa e agradecimentos
A necessidade de cumprir quotas de 50% de professores doutorados está a promover o Doutoramento na Hora nalgumas universidades e politécnicos, que firmam sinergias com instituições espanholas. Estes acordos baseiam-se na circulação de divisa de Portugal para Espanha, e de graus de doutor de Espanha para Portugal. O Inimigo publica aqui uma tese, para preencher, na íntegra.
Título: (escreva aqui um título, por exemplo os três primeiros itens da sua lista de supermercado).
Nome: (é o seu próprio nome, tal como aparece no BI ou cartão do cidadão, que é a mesma coisa)
Faculdade de (ponha aqui a sua área mais ou menos) da Universidade de Lloret del Mar, Isla Canela, Benidorm (riscar o que não interessa).
Data: (ponha a data de hoje, por exemplo, se não for fim de semana)
Agradecimentos: (exemplo: agradeço ao meu cão, fulano e sicrano, tal e tal, e acima de tudo à faculdade onde dou aulas e aos amigos que lá tenho. Obrigados).
Imagem com o título "La arrogancia de la corrupción" daqui. (As melhores legendas em espanhol sempre na Holla! e no seu blog favorito).
Ainda não analisei com detalhe, mas há temas relacionados com irregularidades em concursos para lugares de docência, abusos de poder, endogamia, plágios e até mesmo um caso inacreditável que passo a transcrever:
Não faço ideia se é verdade, mas não é bonito. E claro que esta abordagem voyarista de alegada corrupção não será necessariamente meritória. Mas creio que as questões da transparência dos concursos (uma recomendação da Carta Europeia do Investigador), da endogmia (demonstrado que afecta negativamente a produtividade científica) e do plágio (tabu?) não devem ser metidas para debaixo do tapete.
O problema de fundo creio que é a responsabilização. Nem me choca que um líder de grupo possa escolher livremente as pessoas com quem trabalha, sem necessitar de concursos-fantochada. Desde que seja responsabilizado pelos resultados, recompensado ou castigado. Se as universidades dependerem mais da qualidade da investigação para se financiarem (da capacidade dos seus investigadores para ganharem financiamento) talvez prefiram trabalhar com os melhores, mesmo que estes não sejam os amigos.
E talvez não devessem existir tantas posições permanentes. Como é possível responsabilizar alguém que nunca vai perder o emprego? Defendo posições temporárias nas universidades e institutos, e que ao fim de 3 a 10 anos as pessoas voltem ao mercado e as universidades tenham a oportunidade de se renovar. Naturalmente com mecanismos de protecção social adequados, para que esta mobilidade ocorra de modo sustentado e sem situações dramáticas.
Nesse aspecto vão sem dúvida na boa direcção as posições dos Laboratórios Associados e Ciencias 07/08. Vão? Pergunto, foram oportunidades ganhas ou perdidas? As instituições aproveitaram para contratar pessoas pela sua qualidade e mérito? Os concursos foram justos? Não sei. Mas acho que deveria ser avaliado.
Converti-me recentemente à Igreja do Monstro de Esparguete Voador e acredito firmemente que o mundo foi criado por um monstro voador feito de esparguete. Penso que é imperativo ensinar mais esta teoria de intelligent design, a par com todas as outras, para que cada um possa formar uma opinião crítica e informada acerca da origem do universo e das espécies, e isso.
Mais informação acerca do Esparguete-voador-monstrismo pode ser encontrada nesta brochura.
Fiquei a saber que existe o Conselho Regulador da Entidade Reguladora da Comunicação Social. Mas quem regula o Conselho Regulador da Entidade Reguladora da Comunicação Social?
Investigador em bioquímica. Jornalista de ciência no Público por um curto período. Autor de conteúdos científicos para crianças. Criativo do Inimigo Público.