sábado, 24 de janeiro de 2009

Alpinismo e homossexualidade

George Leigh Mallory foi um exímio e destemido alpinista. Herói da I Guerra Mundial, com uma enorme experiência de escalada nos Alpes e em Gales, fez parte da expedição britânica de reconhecimento do Everest em 1921 e destacou-se num dos primeiros ataques ao cume da montanha mais alta do mundo no ano seguinte. Quando morreu, em 1924 na face norte do Everest, era sem discussão o melhor alpinista britânico do seu tempo. Ninguém desceria para contar que subiu ao cume do Everest antes de 1953 (por altura em que se propunha a estrutura em dupla hélice do ADN).

A última fotografia de George Mallory e Sandy Irvine

Expedição de 1924

Em 1999 o corpo de George Mallory foi encontrado a cerca de 8300 metros de altitude. Os alpinistas que o descobriram ficaram pasmados. As roupas eram simplesmente um amontoado de camadas de roupa quotidiana (camisa!), o material de segurança praticamente inexistente, a corda não aguentaria uma verdadeira queda (na realidade não aguentou, foi encontrada partida) e as botas em absoluto ineficazes para progressão em glaciar. Em 1924 não se poderia recorrer a uma série de "ajudas" dos tempos de hoje, como cordas fixas e uma escada colocada no second step por uma expedição chinesa nos anos 60. As vias de ascensão não eram conhecidas e não se sabia se seria possível a um ser humano sobreviver, mesmo que por breves momentos, no cume do Everest. Os sistemas de oxigénio suplementar tinham tantas fugas e eram tão pesados que suscitava debate a sua real utilidade. Não tinham como se proteger do frio, o calçado era inadequado para progredir sobre o gelo ou neve dura, as cordas partiam e não sabiam por onde ir. Era necessária uma audácia e espírito de aventura inimagináveis.

Por qualquer medida que se tome, George Mallory era um expoente das características superlativas da masculinidade.

Não era só isso. Mallory era considerado um homem muito bonito e tinha um genuíno interesse pelas artes. Estudou em Cambridge, envolveu-se no ambiente do teatro, música e pintura, várias vezes pousou nu para o pintor Ducan Grant (homossexual assumido). Grant chegou mesmo a gabar-se de que Mallory terá sido seu amante. Não quer isto dizer, de modo algum, que tal seja verdade. De qualquer forma, o clima de Cambridge (e de Oxford) na primeira década do século XX era um ambiente muito tolerante à homossexualidade, com manifestações de amor assumidas entre homens.

Não há qualquer prova de que Mallory, mais tarde casado e com filhas, tenha tido alguma experiência homossexual. No entanto assumiu (numa carta enviada à sua mulher!) quando estava na Guerra o fascínio por um soldado extremamente bonito que havia encontrado nas trincheiras no dia anterior.

George Mallory

Há mesmo um biografo de Mallory que sugere que a escolha do inexperiente jovem Sandy Irvine (22 anos sem nenhuma época nos Alpes!) como seu companheiro de cordada na fatal tentativa ao cume do Everest em 1924 terá tido motivos românticos. Esta tese é facilmente desmontada, há várias razões circunstanciais e práticas que justificam a escolha (era um dos alpinistas mais frescos, mais fortes e o que melhor sabia utilizar e reparar o equipamento de oxigénio). De qualquer forma a hipótese é legitima dado o ambiente que se vivia em 1924 entre a elite de aventureiros britânicos.

Em breve os reclusos homossexuais vão poder receber visitas íntimas e coloca-se a hipótese do casamento entre pessoas do mesmo sexo na próxima legislatura. Temos tendência a pensar que o nosso tempo é a vanguarda social e política do ocidente. Mas dá-me ideia que o campo base do Everest ou a Universidade de Cambridge serão hoje ambientes menos tolerantes á homossexualidade do que em 1924.

2 comentários:

picuinhas disse...

Epa David, nao concordo contigo.
Hoje somos muito mais pra frentex. Casar e descasar comeca a ser algo que varre o espectro desde o unilateral ate ao ele-ela/ela-ela/ele-ele. Estamos no bom caminho. Vais ver que daqui a alguns anos nas declaracoes de IRS vai haver a possibilidade de faze-lo conjuntamente entre um numero arbitrario de "eles" com um numero arbitrarios de "elas".

Sera a poligamia em todas as suas possibilidades e combinacoes! Isso sim, e o que valera a pena discutir para aumentar a nossa liberdade de uma vez so. Agora o ele-ele/ela-ela sao so casos particulares. Mas estamos no bom caminho. E, desculpa, poligamia assim nao havia no Evereste. Ou havia??

Obrigado pela historia.

David Marçal disse...

Não estou informado acerca da poligamia no Everest, mas vou estar atento! Obrigado pelo teu comentário, é pretinente e divertido!