domingo, 1 de fevereiro de 2009

Melhor bêbado conhecido que alcoólico anónimo


A endogamia nas universidades é definida como a existência de uma rede social que, independentemente do mérito dos candidatos, sistematicamente atribui posições aos amigos e conhecidos. Arcadi Navarro em 2001 fez um grande estrondo quando publicou na Nature um artigo em que colocava em números o fenómeno da contratação de docentes universitários com base em critérios de proximidade social em vez de mérito científico.

O critério usado por Navarro foi muito simples: comparou a morada do primeiro artigo publicado pelos docentes universitários com morada actual. No caso espanhol, em 95% dos casos era a mesma. Dito de outro modo, apenas 5% das vagas das faculdades são atribuídas a candidatos que vinham de fora. Nos Estados Unidos a situação é exactamente inversa, o número de candidatos externos a obter lugares nas faculdades é de 93%. No Reino Unido 83% e em França 50 %.

A endogamia tem um efeito claramente negativo na produtividade científica, segundo números da base de dados de publicações ISI Web of Knowledge, compilados por Arcadi Navarro. No Reino Unido, um país em que apenas dois em cada 10 elementos da faculdade são recrutados internamente, foram em 2005 produzidos 1463 artigos científicos por milhão de habitantes. E cada um deles, foi citado noutros artigos em média mais de três vezes, o que é uma medida da sua importância. No caso espanhol, em que 19 em cada 20 professores universitários são recrutados dentro da instituição, foram publicados 834 artigos por milhão de habitantes, citados 2,2 vezes cada. Portugal produziu 608 artigos por milhão de habitantes em 2005, citados em média menos de duas vezes.

Fonte: Observatório Nacional da Ciência e Ensino Superior
"Os Estados-Membros devem envidar esforços para tomar, sempre que necessário, as medidas cruciais para garantir que as entidades empregadoras ou financiadoras dos investigadores melhorem os métodos de recrutamento e os sistemas de avaliação/aferição profissional, a fim de criar um sistema mais transparente, aberto, equitativo e internacionalmente aceite de recrutamento e de progressão na carreira, como um requisito prévio para a criação de um verdadeiro mercado europeu de trabalho para os investigadores."

da Carta Europeia do Investigador
(Infografias do Público de 30 de Dezembro de 2006)

5 comentários:

Manyfaces disse...

há uma clara tendência latina para o conforto da lareira, basta olhar para os 3 primeiros da lista... somos mesmo assim não é? é por isso que os Profs a partir de certa altura deixam de publicar como primeiros autores ou autores únicos. Há sempre alguem por lá que se encarrega de manter aceso o fogo da lareira... assim ficam todos quentinhos e felizes. O problema é que o filão dos assistentes acabou, mas ainda haverá por certo muito bolseiro com esperança de entrar no sistema/carreira e que naturalmente acaba por alinhar no esquema... mas vai sendo mais dificil. Já vejo sangue novo a desestabilizar os ultimos concursos, mas as vagas são poucas e por isso esta linhagem endogâmica vai demorar gerações a ser quebrada...

Coelho disse...

Esperemos que essa mudança seja para breve! Mas há 500 anos que o modus operandi dos tugas se mantém inalterado, por isso não creio que existam mudanças para breve! Eu como aluno de uma faculdade de ciências tenho bem a noção de que a endogamia se encontra em toda a parte!É pena, mas é verdade! Cunhas 4ever...

picuinhas disse...

Manyfaces acho que a questao cultural serve aqui mais de desculpa do que de material para uma possivel solucao deste problema (que e um problema). Alias a recorrencia ao "sempre fomos assim" tambem e uma atitude bastante latina... fo-Deus-se-se-se, e pronto, caso arrumado. Nao concordo. Na Alemanha e muito mais dificl a endogamia na definacao do estudo que o David apresenta, porque em muitos estados o recem-doutor e obrigado por lei da uni a mudar de academia para obter o grau seguinte (e ultimo) habilitation, sem o qual nao pode concorrer a lugar de professor. Pode-se dar a volta a isto mas tem muita burocracia acoplada. O melhor, mesmo, e mudar... Juntamente com isso, a habilitation tem de ser reconhecida na universidade onde se concorre a prof (o que nem sempre e trivial). Dai que muitos acabam depois por ficar na uni onde fizeram habilitation. Nao sei se isto significa mais ou menos endogamia no fim. Um gajo que esteve em Uni A, depois Univ B e esta hoje em Uni A outra vez, nao sei se e mais ou menos endogamico do que o que ficou em Uni A e sentou-se depois a "lareira" da Uni B. Mas assumimos que o criterio para recolha de dados nesta estatistica esta ok.


A ser assim:


Que tal *alterar/acrescentar* algumas leis no sistema, em vez de continuar a fazer o choradinho cultural do costume? Conheco *muitos* portugueses que *nao* se confortam nem sequer no sofa, quanto mais a lareira. E a coisa nao e de agora... Se se refastelam na universidade e talvez porque o sistema assim o permite. E de sedentario tem *todos* os seres humanos um bocado...

Maquiavel disse...

Bem, o picuinhas pode sê-lo muito, mas näo é com a Língua Portuguesa. Eu escrevo num teclado finlandês e tenho os acentos, ele que escreve num português näo tem? Para ele e muitos mais "está"="esta" e "é"="e", e eu que deslinde o sentido a partir do arrazoado de palavras que ele debita sem sentido. Vá para a escola, com a breca!

Bom, relativamente ao artigo: muito bom, mas ao mesmo tempo temos que ver que os latinos têm mesmo a tendência de nascer, viver, e morrer no mesmo sítio. A mobilidade social é mínima, admita-se. Nos EUA e RU o pessoal está habituado a mudar de poiso a cada 5 anos, na Alemanha 10, e por aí fora.
De facto, näo me surpreende que Madeira, Açores, E Beira Interior tenham resultados acima dos 90%. Quem quer ir para lá trabalhar? Os mesmos que para lá foram estudar. As redes sociais säo mais fortes, e por aí fora. Há muita concorrência entre faculdades públicas, quer tudo ir para as "principais" e depois quem acaba nas "secundárias" também sabe que näo os equipararäo nunca àqueles vindos das "principais". Triste? Sim, porque um grau académico deveria ser visto como igual aqui ou em toda a UE, mas é o país que temos.
(Nem já falo das privadas, essas nem contam para o Totobola...)

Cria-se um ciclo vicioso: depois as obras säo citadas quase só pelos colegas da própria Univ., ou pelos conhecidos fora desta, que säo poucos.

Depois há a questäo da língua, claro que um artigo em português tem dificuldade em ser mencionado no resto da Europa. Nisso os ingleses têm vantagem.

Mas näo se iludam: isto näo equivale à cunha e existe por toda a Europa, veja-se na Finländia (claro, um meio pequeno e fechado) onde em toda a sociedade isto existe. É normal escolher-se quem é conhecido, cunha mesmo é quando (como no Sul da Euopa) se escolhe um candidato näo por o conhecer do mundo do trabalho, mas por ser "filho do chefe" ou coisa que o valha, preterindo candidatos com melhor habilitaçäo. Em igualdade de habilitaçöes, é óbvio que eu escolho alguém que conheço, só que näo lhe dou melhor salário só por isso. É a pequena diferença.

picuinhas disse...

Concordo com o Maquiavel em quase tudo. Fica a duvida de onde/como concluiste que escrevo em teclado portugues... que ficou por perceber do meu arrazoado?